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O caminho que te leva

Tempo de leitura: Aprox. 5 minutos. 

 

Havia um estudante de medicina que eu conheci. Ele era inseguro e ansioso como muitos que existem por aí. Queria terminar logo o curso e começar a trabalhar para ganhar dinheiro porque vinha de uma família pobre. Contava os dias para sua formatura como se aquilo pudesse apressar o tempo. Ele não tinha muitos amigos também. Eu fui um dos poucos que ele se abria e contava algumas coisas.


Um dia eu o encontrei no café/bar do hospital universitário e ele estava muito chateado e revoltado também. Perguntei o que havia acontecido e ele começou a me contar. “Peraí me deixa pegar um café antes". Coisa minha mesmo.
Ele já começou reclamando e dizendo que estava sendo injustiçado. Estava no sétimo período da faculdade e havia ficado em recuperação na disciplina de cirurgia. Eu apenas escutava sem dizer nada. Ele falou que havia tirado a nota mínima para passar e mesmo assim os professores o escolheram para uma espécie de prova prática. Alguns outros alunos que tinham tirado a nota mínima também foram selecionados, ele não era o único. 
Os dois professores levaram estes alunos para uma prova à beira do leito com os pacientes da enfermaria cirúrgica. 
O primeiro caso era um senhor que estava internado para operar uma hérnia inguinal. Os alunos não sabiam o diagnóstico antes de conversar e examinar o paciente, obviamente. Esse meu amigo fez uma anamnese rápida e o paciente já foi logo dizendo que estava ali para operar uma hérnia na virilha. O estudante se deu por satisfeito, já sabia o que o doente tinha. Apenas examinou rapidamente a região da hérnia e pronto, chamou de volta o professor. Quando o professor voltou ele disse “E aí doutor, o que você acha deste paciente?” O aluno estava confiante e tranquilo por saber o motivo da internação do paciente. “O seu M. aqui está internado para operar de hérnia inguinal a direita. Não tem nenhuma doença relatada. É tabagista e...” O professor o interrompeu “Você examinou o paciente?” “Sim, fiz a palpação da região da hérnia, não apresenta sinais de dor ou inflamação....” O professor sorriu. “Você examinou apenas a região da hérnia do paciente?” “Sim” Ali o meu amigo percebeu que tinha entrado numa enrascada. Ele havia falhado brutalmente ao não examinar o paciente como um todo e não colher uma história clínica mais completa.Até o lado do leito do paciente ele errou (O paciente sempre deve ser abordado pelo lado direito do mesmo)! Achou-se esperto por já conhecer o diagnóstico e apostou na terrível lei do menor esforço.
 

O professor respirou fundo e começou: “Quer dizer que um aluno do quarto ano de medicina da nossa faculdade não sabe colher uma anamnese e nem um exame físico decente de um paciente?! É isso que eu estou vendo?” O aluno se encolheu e viu que estava perdido. “Mas doutor eu...” O professor continuou: “Você me disse que o paciente fuma. Você o auscultou?” “Não eu achei que...” Agora o professor estava quase bufando. “Se este paciente entrasse em seu consultório e dissesse que fuma, você não acha que deveria pelo menos auscultar os pulmões dele? O coração? Você sabia que o cigarro ataca estes órgãos doutor?” O aluno viu-se incapaz de dizer qualquer outra coisa. “Você não mediu a pressão dele, não examinou o abdome e os membros, não verificou pulsos....você não fez nada! Que tipo de médico você quer ser deste jeito!?!” O aluno agora estava totalmente desesperado. “Doutor, eu tirei a nota mínima para passar na disciplina e não deveria estar em recuperação...eu acho que...” Foi o combustível que faltava para o professor destruí-lo completamente. “Não é uma questão de nota!  É uma questão de perceber que você não sabe o mínimo suficiente para ir adiante. O paciente não quer saber de nota. Ele quer saber se o médico é bom o bastante para oferecer cuidado e resolução do seu problema da melhor forma. Pelo que eu vi você não conseguiu fazer isso adequadamente doutor.” O paciente ali como expectador olhava os dois meio apreensivo. “Mas doutor eu...” O professor olhou o relógio. “Eu tenho mais alunos para avaliar. Você vai para mais uma avaliação com o nosso professor chefe da disciplina. É sua última chance para não ser reprovado.” 

Sua avaliação final seria dali uns 30 minutos. No fim das contas ele se saiu melhor na prova com o professor chefe. Parece que o puxão de orelha tinha surtido efeito. Mesmo assim ele estava muito indignado e se sentindo vítima de alguma grande injustiça. Acho que demorou mais alguns anos para ele finalmente entender aquilo tudo. Ele não foi vítima de injustiça. Ele estava sendo cobrado de acordo com o que os professores acharam importante para sua evolução e aprendizado.
 

O FUTURO

Lembrando hoje desta história e colocando tudo em perspectiva fica claro o quanto aquilo foi importante para aquele estudante. De certa forma ele estava subestimando a coisa toda. Estava achando que já sabia muito, mesmo estando em recuperação na disciplina. Na ânsia de terminar logo o curso, de trabalhar e tocar a vida, ele estava deixando de lado que o caminho é muito mais importante do que a chegada. Sua vitimização no caso era totalmente infundada. Os professores estavam fazendo um grande bem a ele. Mostrando que ele precisava se dedicar mais, estar mais atento e aberto aos conhecimentos para que mais tarde fosse um bom médico e pudesse ajudar mais pessoas. 
Alguns anos depois eu encontrei este colega. Ele estava muito bem. Havia se tornado um médico bem sucedido e eu fiquei feliz em saber disso. Ficamos lembrando histórias da época da faculdade, das dificuldades daquele período e de como tudo foi essencial na nossa formação. Temos naturalmente aversão a tomarmos uma bronca ou a quase rodar em uma disciplina, como neste caso que eu contei. Esquecemos que as derrotas nos ensinam muito e aparecem no nosso caminho para que voltemos à rota correta, para ajustar o curso e ser um pouquinho melhores. Principalmente esquecemos que o caminho é a coisa mais importante de todas. É onde tudo acontece e onde estão as grande lições.

 

Leia também: Sobre ensinar e aprender

 


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