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O fantasma da sala 7

Tempo de leitura: Aprox. 7 minutos.

 

O residente do primeiro ano da anestesiologia pegou seu colchonete e encaminhou-se para a sala de cirurgia para descansar. Havia um quarto para os residentes mas ele preferia dormir no centro cirúrgico mesmo. Achava mais pratico caso fosse chamado. Já era meia noite passada. O dia havia sido cansativo com várias cirurgias e aquela correria habitual do hospital universitário. Estava começando a se habituar ao ritmo, posto que ainda era o seu terceiro plantão. 
“-Vai dormir aí?” - Perguntou uma das técnicas de enfermagem do centro cirúrgico. “-Cuidado! Tem um fantasma que mora nesta sala.” Ela disse antes mesmo do residente responder qualquer coisa.
Ele apenas sorriu cansado e entrou na sala 7. Colocou seu colchonete no chão, do lado do aparelho de anestesia. Não demorou muito e pegou no sono. Alguns minutos(ou seriam horas?) acordou com um barulho. Um estalo como um fio desencapado. Estava escuro, apenas uma claridade fraca vindo do corredor. Nada. Tentou voltar a dormir.

Então, logo a seguir, uma luz clareou a sala. O residente levantou imediatamente achando que era alguém que estava tentando pregar uma peça. Ele já tinha ouvido falar da história do fantasma que habitava a sala 7. Nos seus 2 primeiros plantões ele tinha dormido ali e nada havia acontecido. “Isso é lenda do hospital lógico.” 
No entanto estava ele ali em pé diante daquela luminosidade súbita. O monitor do aparelho de anestesia havia ligado, aparentemente sozinho. “Auto-teste, confirme parâmetros iniciais............loading”. 

Desligou o monitor. Olhou mais uma vez ao redor. Foi até a porta da sala, tudo calmo. Quando se voltou para o colchonete percebeu algo parado ao lado da mesa cirúrgica. Como uma silhueta, mais escura que a penumbra. Uma forma humana! Imediatamente pensou em sair correndo, gritar, mas não conseguiu. Ficou ali olhando a figura num misto de curiosidade e medo puro. Fechou os olhos e abriu novamente, a figura ainda estava ali.

“Oi....quem é você?” Disse o residente com os músculos da face tremendo e a voz gaguejando. “Você sabe quem eu sou. Você já ouviu falar de mim.” O coração batia tão forte, a respiração como um motor impossível de controlar. “Você é o fantasma da sala 7?” Uma breve risada cortou o ar como um bisturi. “ Sim!” A voz meio rouca ecoando na sala respondeu.
“Isso é um sonho? Ou alguma brincadeira?” Disse o residente tentando colocar as coisas dentro da lógica ou da realidade. “Não. Eu existo, estou aqui diante de você, não estou?” Foi a resposta do fantasma.

“O que você quer? Por que veio falar comigo agora?” Não havia uma face que o residente pudesse enxergar, mas foi como se conseguisse notar um leve sorriso do fantasma pelo jeito como respondeu. “Vim falar com você porque parece que você não tem medo. Já dormiu aqui em duas outras noites, fiquei lhe observando e te achei curioso.” O residente não sabia o que fazer. Era algo totalmente fora de qualquer coisa que ele tinha visto ou sabido. “Você se incomoda que eu durma aqui? tem o quarto dos residentes, eu posso ir para lá...” “Não me importo!” A voz cortou o palavreado ofegante do novato. 
“ Eu passo os dias aqui. Eu já fui como um de vocês. Eu gosto daqui.” Disse o fantasma. “Você morreu aqui? É isso?” Perguntou o residente. “Não, nada disso. Eu quis ser médico há muito tempo atrás. Não foi possível. Eu gosto de observar vocês. As coisas que vocês fazem. Aqui existem muitos alunos e eu acabo aprendendo um pouco também!” O residente sorriu(estava sorrindo mesmo?). “Você é um residente permanente do hospital, eu acho.” Hã!? O que ele havia dito? Estava falando mesmo com uma entidade? Um ectoplasma?

“Eu devo estar enlouquecendo, e ainda estou no primeiro ano da...”

Um suspiro cortou o ar. “ Verdade. Não havia pensado desta forma. Acho que você tem razão. Mas você não está enlouquecendo, eu garanto.” A sombra deslocou-se, como se agora estivesse em cima da mesa de cirurgia, mas através dela também. “Você pode me ferir?” Perguntou o residente. “Vocês vivos tem esta mania insensata de achar que os desencarnados só querem lhes causar dano, quando são vocês mesmos que vivem fazendo isso uns aos outros.” Engraçado isso que o fantasma disse. Certeiro como uma flecha.

“Eu observo a correria de vocês. Estou aqui há muitos anos. Já vi muitos alunos e professores e alunos que depois viraram professores. No entanto, posso lhe dizer que poucos são os que aprendem de fato. A maioria de vocês ignora a grande lição.” Disse o fantasma que agora parecia um bom professor ele mesmo. “Que lição? Do que você está falando?” Disse o  R1 ansioso. “Controle. A lição do controle. Vocês querem e almejam controlar tudo. Os pacientes, as coisas, os funcionários(que também querem controlar alguma coisa), a vida, a morte. O fato é que poucos, pouquíssimos se dão conta de que na verdade não controlam nada. É tudo uma ilusão de certa forma.” 
“Não devemos fazer nada então? Se não podemos controlar nada, de que adianta o que estamos fazendo aqui?” Respondeu o residente, lembrando que estava com sono e sem saber como encerrar aquilo tudo. “Veja como você se irrita em saber disso. Todos vocês sabem esta lição bem lá no fundo da alma, mas insistem em ignorá-la e vivem se debatendo como animais numa jaula.” Falou o fantasma calmamente. “Olha seu fantasma, eu agradeço a conversa mas eu preciso dormir. O dia foi longo e...” “Sim, eu acompanhei seu dia.” Disse a voz sobrenatural. “Você fez coisas boas hoje, aprendeu um pouco mais de medicina. Esteve ansioso com aquele paciente grave. Eu vi tudo.” 
Por estranho  que fosse, o residente não estava mais com medo e nem se sentindo mal. Agora era como se conversasse com um amigo ou conhecido. “Agradeço pela sua atenção comigo. Gostaria de fazer uma última pergunta antes de voltar a dormir.” “Pode perguntar” Disse o fantasma.
“Se não controlamos nada. Se estamos aqui correndo e nos debatendo. Qual a finalidade de tudo isso?” Perguntou o aluno. “Vocês ainda não têm muita maturidade para entender. Mas posso lhe dar uma pista. O aprendizado não acaba nunca e o tempo para aprender se estende pela eternidade. Há algo maior lá fora e a vida não se resume a estes poucos instantes de alguns anos. A serenidade que eu tenho agora só veio depois de muito, muito tempo e muitas lições. Um Maestro Supremo que controla tudo e não vocês. Alguns o chamam de Deus, mas eu prefiro Maestro mesmo. Vocês são peças pequenas de uma gigantesca engrenagem. Vocês são importantes mas não o principal. Esta grande angústia que vocês sentem surge de tudo isso.”  O residente não sabia o que dizer. Era como se entendesse um pouco do que o fantasma acabara de lhe falar. Era profundo  demais talvez, mas era como se um pequeno brilho, um lampejo num túnel de escuridão. Um aviso do tempo e das coisas. De como tudo é passageiro e fugaz.

Logo a seguir a luz da sala acendeu e em seguida a voz de uma enfermeira disse: 
“Chegou uma laparotomia!” O residente olhou para onde o fantasma estava até há pouco. Não havia mais nada lá. Não pôde deixar de dar um pequeno sorriso e dizer para a enfermeira: “Já estou indo.”

 

Leia também: Título de Especialista, precisa mesmo?

 

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