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E agora, R1?

20 Jan 2017

Num passado não muito distante...


Faculdade de medicina, um pouco de estudo, formatura, mais estudo, plantões em emergências, UPA's, unidades de saúde da família, ainda mais estudo e ai...

 

 

...aprovado na residência de anestesiologia.  Festa, comemoração, alegria. Mas e ai? O que muda ao virar R1?  Às vezes temos que nos mudar de cidade, pra longe da família, da(o) namorada(o), dos amigos, de tudo. Mas isso não é nada. Confesso, nunca havia intubado nenhum paciente vivo. A academia médica, muitas vezes deficiente, não nos provê esse desafio in vivo. Ficamos só na repetição infinitas vezes naquele mesmo boneco. Bob - o boneco- era duro, imóvel, arresponsivo, vazio, estava morto... bem, Não tecnicamente, pois nunca viveu. Aquela época de faculdade e simulações clínicas me ajudaram a despertar curiosidade na manipulação da via aérea e estabilização do paciente crítico me fazendo optar pela anestesiologia.

 

01 de março de 2016

 

Chego eu, primeiro dia de residente de anestesiologia mais perdido que cego em tiroteio.
 

Que horas devo chegar? Como chego no hospital? Onde pego a vestimenta? O que devo fazer? Sem tempo de responder qualquer uma das perguntas, adentro nesse centro cirúrgico a pleno vapor, mapa cirúrgico lotado todos vestidos com a mesma roupa andando de um lado para outro. No quadro, cirurgias da vascular, urologia, plástica, geral e otorrino qual dessas devo entrar? Fiquei ali no corredor esperando alguma alma caridosa para ensinar o mágico caminho da anestesia. Enquanto isso percebia olhares diferentes, era nítido que eu era o novo R1, todos me olhavam com curiosidade e dúvida e seguiam seus caminhos. Chega o preceptor... depois de um rápido "bom dia"  te arrasta pra sala 03, ali, começaria minha vida em anestesia. No fim, a pergunta mais importante não era que horas, nem endereço, muito menos a roupa. Mas sim, como farei essa raquianestesia e que diabos seria bupivacaína hiperbárica?

 

 

Abril, maio, junho, julho...

 

 

Passadas algumas semanas, somos apresentados e iniciados no medo do logbook, propagado por nossos R2 e R3. Nos aflige não conseguirmos atingir o número de horas requerido ou de procedimentos.  Inicia-se já nesse começo de residência uma corrida para bater a meta proposta e enchermos esse caderno de "figurinhas". O filósofo alemão Theodore Adorne pregava que "a competição é um princípio, no fundo, contrário a uma educação humana" de nada ajuda esse comportamento entre colegas residentes. Gera uma competição num ambiente onde todos deveriam se ajudar. Quem fez mais raquianestesias, intubações, peridurais, acessos centrais e bloqueios de plexo? Quem ganha com isso? Ficamos nos comparando com os outros "coleguinhas" sem ganho algum. Talvez fosse muito mais salutar seguir o conselho da ex-presidente Dilma Rousseff, por que não "deixar a meta em aberto"? Não é  esse número vazio que vai mostrar que você é ou será um bom anestesiologista.
 

 

 
Agosto, setembro, outubro, novembro, dezembro...   

   

Nesse período inicial deixei de ser médico, me tornei um excelente "raquianestesista", "entubador", passador de acessos centrais. Um mero repetidor de processos, à cópia daquela filosofia de 1914 -o fordismo- para produção em massa. Chegava cada vez mais cansado, sem vontade de estudar obcecado por um número no final do dia, ali, perdi o real sentido de fazer anestesia. Sentido de fascínio aquele, que outrora tinha me seduzido, graças a Bob. Um bom anestesista é uma máquina? Ledo engano, não é um mero repetidor de processos, precisa ser humano. Se apenas instrumento  fosse, o anestesista já teria sido substituído por um robô ou algo parecido.

 

 

 

 

Janeiro de 2017
 

Chegando ao fim de meu R1, quase R2, percebo que mudei. Como dizia o escritor americano Louis L`Amour "o caminho é o que mais importa, não o seu fim. Se viajar depressa demais, vai perder aquilo que o fez viajar". Me encantei novamente pela anestesia.  Nada adianta ter um lindo e extenso logbook cheio de figurinhas (vulgo procedimentos), iguais e feitos nas pressas a fim de se aproximar da meta solicitada. Muito mais importante na medicina, na anestesia e na vida é conseguir perceber as diferenças e desfrutar as minúcias que fazem nossos pacientes únicos.

 

 

 “Mais que de máquinas, precisamos de humanidade”

Charles Chaplin 

 

Dr. Gildo Nunes Silva Neto

R1 de Anestesiologia do CHMSBC em São Bernardo do Campo-SP

Colaborador do Portal Anestesia
Nas horas vagas, jiu-jiteiro e amante do Netflix.

 

 

 

 

 

 

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