O trabalho

Autor: Dr. Carlos Eduardo Martins

Hoje eu quero falar sobre o trabalho. Sobre trabalhar. Recebo muitas perguntas e dúvidas de estudantes de medicina que pensam em fazer anestesio. Muitas relacionadas à qualidade de vida, tempo para fazer outras coisas, dormir no hospital de plantão ou não etc. Coisas sobre a rotina do anestesiologista. Fiquei pensando em uma forma de responder isto de maneira uniforme e mais exata. Por conta disso, vou contar duas histórias:

A primeira delas é de um paciente que eu anestesiei dia desses. Ele tinha 91 anos. Iria fazer um procedimento urológico relativamente pequeno. Pacientes idosos sempre impõem um desafio maior, são mais sensíveis aos anestésicos, seus sistemas orgânicos não possuem a mesma resistência e flexibilidade da juventude. No entanto, este senhor em questão, não tinha nada! Não era hipertenso, diabético, cardiopata, vasculopata, nem reumático. Nunca esteve internado segundo ele. Ele era apenas idoso. Com 91 anos parecia ter uns 10-15 anos a menos. Muito forte, lúcido e engraçado.

Eu perguntei para ele qual era o segredo daquela vitalidade toda. “Trabalho dotô! Nunca parei de trabalhar desde bem novo.” Me contou que era natural da Bahia mas já morava aqui no PR há mais de 60 anos. Fiquei pensando naquilo. Trabalho! O segredo deste paciente é uma coisa que está disponível a todos, de uma forma ou de outra. Não era dieta, não era academia 5 vezes por semana nem algo do tipo. Claro que eu não estou advogando aqui que devemos abandonar nossos cuidados com o corpo e alimentação, nem desprezar o peso da genética, mas o trabalho, que nos parece tão extenuante e incomodativo, é algo fundamental na vida de qualquer um. Digo isto porque as gerações mais novas parecem já vir com uma programação que diz “não posso trabalhar muito, não posso me cansar demais”. Esta é a impressão que tenho. “Antes de escolher o que fazer veja se você terá que trabalhar demais. Olha lá hein, não vá entrar em estafa!

Óbvio que tudo em excesso prejudica. Tudo exige bom-senso e cuidado. Mas o que eu quero dizer, e por isso usei o exemplo do seu João(nome fictício) com 91 anos é que parece que estamos preocupados demais em não fazer algumas coisas, muito antes mesmo de tentar e/ou começar. Não parece?

A segunda estória é de um professor meu da graduação, Dr Damerau (já falecido). Professor de cirurgia do HU da Universidade Federal de Santa Catarina, onde me graduei. Ele era um excelente professor, daqueles que você assiste as aulas e não percebe o tempo passar, tantas eram as grandes lições que ele conseguia nos transmitir.

Bom, em uma de nossas últimas aulas com ele(se não me engano na aula magna) ele nos ilustrou com um pouco de sua própria história, de quando era um jovem médico lá em Florianópolis, e eu nunca mais esqueci.

Na época em que ele começou sua vida como médico ele disse que morava fora da Ilha, em um tempo que existia apenas a Ponte Hercílio Luz e a maioria das pessoas atravessavam do continente para a ilha com balsas/barcos. Ele disse que acordava todo dia umas 5 da manhã e saía, atravessava o estreito banhado pelo mar para chegar ao Hospital de Caridade e passar visita e em seguida ir para o bloco cirúrgico operar. Isso não foi uma semana, um mês, foram anos fazendo isso! Trabalhando e atendendo até tarde, voltando para casa de noite e começando tudo novamente no outro dia. Sem reclamar. Trabalhando.

VIDA

A grande lição deste memorável professor foi exatamente esta. “Trabalhem! Não tenha medo de trabalhar, de atender os pacientes da melhor forma, de se entregar de corpo e alma.” Isso eu jamais esquecerei. Certamente fomos abençoados ao aprender com um mestre tão ilustre.

Mas este é outro grande exemplo que mostra o quanto o trabalho nos faz bem. O trabalho nos exige um gasto de energia mas sempre, quando bem executado, nos traz de volta a insubstituível sensação de dever cumprido. Eu considero isto energia também. Energia que volta. Nos faz crescer e evoluir. Uns mais, outros menos. A mensagem que quero deixar com estas duas estórias curtinhas é esta. Faça o que você ama da melhor forma. Todos passam por momentos de dúvidas e dificuldades (não fosse assim que graça teria?), mas não é isto que deve servir de bússola para qual caminho tomar. O trabalho, por simples e usual que pareça, é o que nos torna grandes, tanto frente à sociedade ou comunidade a qual fazemos parte, mas sobretudo diante de nós mesmos e da nossa consciência.

“O trabalho engrossa o fio da vida.” – Chico Xavier

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