O PODER

DO TEMPO

Autor: Dr. Carlos Eduardo Martins

Esta escrivaninha da foto, (que está em um hospital onde trabalho) me lembrou de quando, há muito tempo atrás, eu estudei para o vestibular. Parece que já fazem uns 100 anos. Foi um flashback instantâneo. Até o cheiro da madeira parece o mesmo. Numa escrivaninha assim foi quando comecei a escrever a minha história.

 

Fiz vestibular numa época em que ainda não existiam cotas ou outras coisas do tipo. Era você e os concorrentes (e os descendentes de orientais que estudavam muito). Se você se esforçasse bastante e estudasse muito você conseguiria entrar em alguma universidade pública onde os cursos eram muito disputados. Medicina então era algo quase inalcançável, para mim pelo menos . Um sonho distante. Já existiam cursos em universidades privadas(não tantos como hoje) mas minha mãe não tinha condições de pagar um curso assim, então a pública era minha única opção.

Eu pude estudar em um bom colégio para o vestibular. Era bem voltado para uma boa preparação. Isso exigiu muito trabalho e sacrifício da minha família. Evidentemente que se eu tivesse ficado estudando em uma escola pública as minhas chances seriam reduzidas drasticamente.

Assim foi e voltamos à velha escrivaninha. Eu estudei como um louco. Eu ia para Florianópolis (morávamos numa cidade a uns 40km de distância) de ônibus, onde ficava meu colégio. Acordava 4:45h todo dia(ainda não existia o Milagre da Manhã). Pegava o ônibus umas 5:15 e chegava em Floripa perto das 7:00 da manhã. Voltava meio-dia e chegava em casa 13:30 da tarde. Passava na casa da minha vó para almoçar. Prato de comida no microondas(Obrigado vó! ❤). Comia e ia para casa ali perto. Sentava para estudar umas 14:00 e só saía da escrivaninha por volta das 20:00h. Sério. Todos os dias! Aquele foi um longo ano. Acredito que deve ter tido mais de 365 dias aquele 1996.

Lembro que minha mãe chegava do trabalho perto das 18:00. Fazia alguma coisa para eu comer e muita vezes eu não parava nem para ir na cozinha. Eu fiz redação todos os dias. Treinava redação assim como fazia questões de outras disciplinas. No final do ano tinha uma gaveta atulhada delas. Eu lia as redações para minha mãe(professora de português). Ela fazia algumas observações, corrigia, dizia o que eu podia melhorar etc. No final das contas isso me ajudou demais a passar. 

No fim do ano passei. Meu primeiro e único vestibular para medicina. Aprovado na UFSC(olióliólió!) Demorou muito tempo para minha ficha cair. Foi uma alegria inacreditável! Fui o primeiro a conseguir tal façanha na pacata cidade de Tijucas/SC. Fiquei “famoso” e até ganhei um dinheirinho dando aulas particulares para alguns estudantes da cidade.

 

Muitos anos depois esta escrivaninha me fez lembrar disso tudo e refletir. Toda a luta desta história bem particular. Igual a tantas outras, mas fundamental para mim. A persistência daquele ano e a coragem de lutar pelo que eu realmente queria. A profissão que já me trouxe tantas alegrias e alguns cabelos brancos. A escrivaninha foi a minha catapulta para alcançar e chegar aqui em cima. Eu tinha 16 anos. Hoje eu tenho quase 40 e posso dizer que deu tudo certo.

 

Estou em outra luta, estudando para outra prova (TSA) pelo terceiro ano seguido. Um desafio pesado e intenso e que já me ensinou tanta coisa também. Hoje eu tenho maturidade, melhores condições, mas já não tenho tanto tempo disponível para estudar.Tenho que ser marido e pai, tenho contas para pagar, tenho que trabalhar evidentemente, mas tudo acaba sendo bem proporcional.

Meu ânimo de lutar não sumiu, mas ficou mais refinado depois de todos estes anos de estrada. Ainda bem! Eu sou otimista por natureza e tenho fé que no fim das contas tudo se ajeita. Como diz uma querida amiga: se não chegou a um final feliz é porque a história ainda não acabou.

 

Eu não tenho mais a escrivaninha velha de guerra, mas eu sei que ela está em algum lugar na minha cabeça. Sempre pronta para novos desafios. Ela está sempre lá com meus resumos espalhados. As gavetas cheias de folhas rabiscadas, alguns desenhos perdidos. Isso me traz uma grande paz e confiança porque eu acredito que tudo depende da nossa persistência e dedicação para se alcançar lugares mais altos.

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